Reflexões Sobre o Conhecimento e a Educação*

Para Maturana e Varela o mundo não é anterior à nossa experiência. Nossa trajetória de vida nos faz construir conhecimento do mundo – mas este também constrói seu próprio conhecimento a nosso respeito.Mesmo que imediato não o percebamos, somos sempre influenciados e modificados pelo que vemos e sentimos. Quando damos um passeio pela praia, por exemplo, ao fim do trajeto estaremos diferentes do que estávamos antes. Por sua vez, a praia também nos percebe. Estará diferente depois da nossa passagem: terá registrado nossas pegadas na areia – ou terá de lidar também com o lixo com o qual porventura a tenhamos poluído. (2001, p. 10)
Algo muitíssimo importante que talvez não tenha como se registrar são nas impressões, as energias, impregnadas por onde quer que se tenha passado,. Isto, com certeza, vai alterar a dinâmica daquele espaço vivo que se passa, que se vive, que se sente, enfim, a vida sendo a cada instante. E é isso que alimenta nossos pensamentos, atitudes, comportamento, construindo a forma como se vê o mundo, as pessoas e as coisas, direcionando o aprender a fazer, aprender a conviver, aprender a aprender e principalmente o aprender a ser.

A responsabilidade além de individual é também coletiva, social, uma vez que se vive, que se verticaliza uma consciência plena de co-autoria com os próprios genes, com a natureza, com o Planeta, onde continuamente o ser humano está participando, colaborando, trabalhando, fazendo, criando, observando. Talvez, por não querer perceber, o ser humano viva o caos da insatisfação consegue e com tudo a sua volta, enquanto deveria se preocupar em construir através do seu conhecimento apreendido uma qualidade de vida para evoluir, se adaptar e ser feliz.

Em todas as sociedades a cultura se impõe aos indivíduos. O feto sofre influências culturais na vida intrauterina (alimentação, sons, músicas), e desde o nascimento o indivíduo começa a receber a herança cultural que garante a sua formação e desenvolvimento como ser social;   ele sofre a influência de tabus, regras (que se inscrevem no tecido cerebral por meio da estabilização eletiva de sinapses), e tem fixado a si automatismos sociais que influenciam na sua forma de pensar, de falar, de ser, de agir, de convier, de aprender, de construir.
Em todo indivíduo, a herança cultural se soma à hereditariedade biológica, o que determina estímulos ou inibições que dão forma a essa hereditariedade. Assim, cada cultura, com seu sistema educacional, seu regime alimentar, seus padrões de comportamento, inibe, favorece, estimula, determina a expressão dessa atitude, exerce seus efeitos no funcionamento do cérebro e na formação da mente.  Desse modo, intervém na organização e no controle do conjunto da personalidade.
“A cultura inscreverá no indivíduo o seu imprinting — expressão matricial freqüentemente definitiva, que marca os indivíduos em sua maneira de conhecer e comportar-se desde a infância e se aprofunda por meio da  educação familiar e, a seguir, pela escolar. O imprinting fixa o que está prescrito e o que é interdito, o santificado e o maldito. Implanta crenças, idéias e doutrinas que têm força imperativa de verdade ou evidência. Enraíza nas mentes seus paradigmas, princípios que comandam os esquemas e os modos explicativos, o uso da lógica, as teorias, pensamentos e discursos. O imprinting se faz acompanhar de uma normalização que faz com que se calem todas as dúvidas ou contestações de suas normas, verdades e tabus. Vem daí o caráter aparentemente inexorável dos determinismos intermos à mente” (E. Morin, 2001).

Do mesmo modo, as águas de um rio vão abrindo o seu trajeto por entre os acidentes e as irregularidades do terreno. Mas estes também ajudam a moldar o itinerário, pois nem a correnteza nem a geografia das margens determinam isoladamente o curso fluvial: ele se estrutura de um interativo, o que nos revela com as coisas se determinam e se constroem umas às outras. Por serem assim, a cada momento elas nos surpreendem, revelando-se que aquilo que pensávamos ser repetição sempre foi diferença e o que julgávamos ser monotonia nunca deixou de ser criatividade.
Uma vez, que a diversidade está em nós seres vivos, na natureza, no universo. Nada é igual a cada instante da vida. Portanto, é preciso sempre apreender, incansavelmente aprender! As células do corpo humano se modificam a cada momento que se vive, portanto nada será repetido feito cópia, tudo tem um pouco de “miscigenação”, de criatividade, de humano.
“Tomemos outra metáfora: não são sós os timoneiros que dirigem os navios. O meio ambiente também pilota as embarcações, por meio das correntes marítimas, dos ventos, dos acidentes de percurso, das tempestades e assim por diante. Dessa forma os pilotos guiam, mas também são guiados. Não há velejador experiente que não saiba disso. Portanto, pode-se dizer que construímos o mundo e, ao mesmo tempo, somos construídos por ele. Como em todo esses processo entram sempre outras pessoas e os demais seres vivos, tal construção é necessariamente compartilhada”(2001, p. 11).

Os seres humanos não são só agentes, autores, participantes do processo que é a vida, mas sim, co-agentes, co-autores, co-participantes, colaboradores, compartilhadores, cidadãos planetários. Pois são uma parte do e no todo que realiza trabalho, produz energia, opera execuções e constrói um mundo inacabado e aberto. Quando se pensa assim, tem se a consciência de que tem parcelas e mais parcelas de responsabilidade, afirma-se a coragem e a persistência para continuar e confirmar o compromisso moral e espiritual com o Planeta.
Assim, os seres vivos só poderão estar construindo o conhecimento apoiado na interação efetiva e concreta. Aprendendo a viver e vivendo aprender e se faz pela educação formal.
São duas as vertentes de Maturana e Varela nesta obra, que trata da construção humana do conhecimento:
1.° o conhecimento não se limita ao processamento de informações advindas de um mundo anterior à experiência do observador, a qual se apropria dele para fragmentá-lo e explorá-lo.
2.° os seres vivos são autônomos – autoprodutores – capaz de produzir seus próprios componentes ao interagir com o meio: vivem no conhecimento e conhecem no viver.

É preciso se autoconhecer ao mesmo tempo em que observa o mundo, as pessoas e as coisas em torno de si e para si. Assim, é possível compreender e perceber que entre ser humano e mundo não existe hierarquia nem separação e sim cooperatividade na circularidade. E como ele compreende a experiência do que observa e no que e para que isso ou aquilo pode fundamentar o conhecimento.

A circularidade é ação e experiência, continuamente, infinitamente, uma ação que gera experiência que se assimila, e que irá gerar outra ação, e assim sucessivamente.
Tende-se a viver num mundo de certezas, de solidez perceptiva não contestada, em que as convicções provam que as coisas são somente como se vê e não existe alternativa para aquilo que parece certo. Essa é a situação cotidiana, a condição cultural, o modo habitual dos seres humanos.
Talvez, pelo não tão simples e sim complexo modo de pensar, de refletir que muitas vezes se deixa de lado, porque é mais seguir a onda do que quebrá-la gerando mudança que faz pensar, fazer, aprender, ser. Por isso a importância de um dos aforismos-chave do livro: “Todo fazer é um conhecer e todo conhecer é um fazer” e “tudo o que é dito por alguém.” ( 2001, p. 31 ). Toda a ação de refletir faz emergir um mundo de idéias, portanto a reflexão é um ato humano realizado por alguém em algum lugar.

É claro que o indivíduo humano não pode escapar de sua sorte paradoxal: é uma pequena partícula de vida, um instante efêmero, uma insignificância. Mas contém em si a plenitude da realidade viva: a existência, o ser, os fazeres, os saberes. Assim, ele contém a totalidade da vida e ao mesmo tempo é uma unidade elementar da vida. Contém simultaneamente a plenitude da realidade humana, a consciência, o pensamento, o amor, a amizade e a própria realidade da humanidade — tudo isso sem deixar de ser a unidade elementar da humanidade.

Em todo indivíduo, a herança cultural se mescla à hereditariedade biológica, o que determina estímulos ou inibições que modulam a opressão dessa hereditariedade. Assim, cada cultura, com seu sistema educacional, seu regime alimentar, seus padrões de comportamento, recalca, inibe, favorece, estimula, determina a expressão dessa atitude, exerce seus efeitos no funcionamento do cérebro e na formação da mente.  Desse modo, intervém na organização e no controle do conjunto da personalidade.
Quando se torna relativamente autônoma, a vida cotidiana permite desenvolvimentos pessoais, em especial no que se refere ao amor. A adoração e o culto às divindades se ampliam pela vida privada e se encarnam na pessoa amada. Dessa maneira o complexo do amor se democratiza — ele que inclui o seu tanto de mitologia e religião e torna poéticas as existências individuais.
Por fim, nas democracias os indivíduos se tornam cidadãos para poder gozar de seus direitos. Daí a importância antropológica da democracia, considerando que ela institui possibilidades de  liberdade ou de escravidão humana.
”Os direitos continuam distribuídos de modo desigual, mesmo nas sociedade democráticas altamente complexas. As possibilidades de liberdade  de movimentos, ação, fruições, espírito, também são desigualmente divididas.” (E. Morin, 2001).

O social é um fazer, editar nas relações humanas que precisa se fundamentar no existir de um e do outro, é neste espaço que se construir conhecimento a partir da rede de interações e da diversidade que enriquece o fuir e refluir o amor entre os seres humanos. A responsabilidade de transformar através do conhecimento é de cada um para cada um e para todos!

Referências
MATURANA, H. R. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. – São Paulo: Palas Athena, 2001.
MORIN, E. Os setes saberes necessários à educação do futuro. – 3.ª ed. – São Paulo: Cortez, 2001.

*SANCHES, L. R.  Texto produzido no  curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Formação Pedagógica do Docente de Nível Superior. FACULDADE DOUTOR LEOCÁDIO JOSÉ CORREIA – CTBA/PR.